O Calor (Humano) do Canadá Judaico

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O Calor (Humano) do Canadá Judaico PDF Imprimir E-mail
Escrito por Paulinho Rosenbaum   
Dom, 01 de Fevereiro de 2009 14:33
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É conhecida a anedota em que Moisés dizia aos judeus para irem a “Ca-ca-ca... naã”, quando na verdade queria dizer “Canadá”. Quem visita este Ishuv fica impressionado com sua pujança e enorme movimentação: verdadeiro molde para as comunidades judaicas da Diáspora.  

 

O destino inicial era Miami, mas um forte vento espiritual acabou me levando a Toronto. Faltava uma semana para Pessach e a neve não havia acabado de derreter. Um amigo fizera os arranjos para dormir e comer durante os dias da festa. Que organização! Oito dias de festa. Dez refeições. Dez famílias diferentes. Tudo batendo como um relógio. De repente, surgiu um problema dentário! No problem. Um dentista patrício abriu o consultório para me atender, senão... de que modo eu morderia a Matsá?

 

A festa de Pessach passou e fiquei encantado com Toronto. Melhor dizendo, com a comunidade judaica local, com a qual conviveria pelos próximos quatro anos, embora tivesse ido passar apenas alguns dias. Uma comunidade vibrante, unida e que sabe aproveitar o melhor do que o Judaísmo e Israel têm a oferecer. É impossível descrever em poucas linhas todas as características do Ishuv canadense, por isto delinearei apenas o essencial. São 114 mil judeus no Canadá.* A maioria vive no que se conhece como GTA (Great Toronto Area), que inclui a cidade de Toronto e suburbios adjacentes como Richmond Hill e Thornhill. Este último vem se firmando como polo principal de migração e imigração judaica e isto inclui parte da comunidade Sefaradi que vivia em Montreal, judeus da ex-União Soviética, America do Sul, África do Sul e Israel.

 

 

  Vista de um dos entroncamentos "judaicos" de Thornhil: Bathurst & Clark Street. 

 

Toronto é uma cidade que encoraja o diferenciamento étnico, por isto cada grupo cultural tem o seu bairro: Portuguêses, Gregos, Hindus, Italianos, Chineses, Espanhóis, Paquistaneses e Russos tem bairros e ruas com característica própria. De alguma maneira isto também influenciou os judeus: Toronto tem uma Sinagoga onde só se fala hebraico, uma Sinagoga russa e outra para os judeus sulafricanos, que mantém laços sociais e culturais diferenciados mesmo sendo originários de um país de língua inglesa. A maioria da população judaica vive ao longo da Bathurst Street, que começa no centro da cidade e cresce quilometricamente rumo ao norte de Toronto. Alías, no Canadá mede-se as distâncias em quilometros e a temperatura em graus Celsius (influência francesa) mas pesa-se em libras e mede-se a altura em pés (influência inglesa).

 

Conforme subimos a Bathurst Street começam a aparecer Sinagogas e placas com dizeres em hebraico de restaurantes casher, clubes e diversos tipos de instituições judaicas, escolas, Ieshivot e até profissionais liberais que colocam placas em hebraico ou russo para aumentar sua clientela.

Toronto parece um tabuleiro de xadrez, com suas retas e perpendiculares matematicamente perfeitas. Tudo se localiza pela intersecção de uma rua que vai de norte a sul, com outra que vai de leste a oeste.

As principais transversais da Bathurst que abrigam a comunidade judaica são a Eglington, Wilson, Lawrence, Finch, Steeles e Clark. Grande parte da comunidade ortodoxa, por exemplo, vive entre a Wilson e a Lawrence. Os judeus russos e os israelenses vivem ao longo da Steeles e o pessoal modern orthodox, imigrantes de outros países e jovens famílias vivem em torno da Clark.

Eu morava na Bathurst com a Arnold Street, entre a Steeles e a Clark. É assim que você diz seu endereço em Toronto. 

Na Arnold Street fica o Beit Midrash Bar Iochai, do Rabino Shalom Revach Shalita, autoridade rabínica respeitada em todo a cidade. Ali passei dois anos estudando textos judaicos sagrados, o que ajudou muito na hora de traduzir estes livros para o Português. Além disso, costumavamos reunir uma vez por semana uma turma considerável de imigrantes judeus da America Latina para estudar Torá.            

Como dizíamos no início, a semana de Pessach terminou e tudo voltou ao normal. Eu havia alugado um basement (apartamento na planta baixa de um imóvel) de uma família de judeus russos baalei teshuvá que haviam chegado de Israel. Então resolveu nevar de novo, em plena primavera, algo como uma saideira do inverno. Despreparado, me resfriei e tive que mofar em casa por uma semana.

Qual não foi minha surpresa logo no primeiro dia de gripe, quando ouvi alguém bater à porta e exclamar em Espanhol:

 – señor Pauliño Rosenbaum?

 – Xim, respondi com nariz entupido.

A voz foi abrindo a porta devagarinho.

– Mi nombre es Medina y te traigo comida para la semana. No te muevas de la cama, te la acerco a ti.            

O senhor Medina era gabai de uma das Sinagogas Sefaraditas locais, de judeus tangerinos. Um amigo o havia encontrado no supermercado e contou que eu estava muito gripado.

O senhor Medina fez uma baita compra, com direito a suco de laranja natural e um montão de coisa boa e me trouxe até o basement. imagine que você está doente, sozinho, num país onde nunca esteve e que alguém bate na tua porta com as mãos carregadas de compras. É ou não é uma sensação maravilhosa?

O senhor Medina me convidou para o primeiro Shabat em que tivesse disposição para sair na rua onde comeria comida marroquina superapimentada e ótima para afastar qualquer gripe.  

Demorou um pouco para saber como viver o cotidiano (e principalmente o Shabat e suas leis) num país de clima frio como o Canadá, mas não demorou nada para conhecer a enorme hospitalidade da sua comunidade judaica.

E isto incluia tanto os nascidos no país como os imigrantes e os israelenses, que tem duas revistas e uma estação de rádio. A comunidade ortodoxa também tem sua estação de rádio, com canções típicas e aulas de Torá o dia todo exceto Shabat e festas, obviamente.              

O que mais me impressionou no Canadá judaico é a unificação das suas instituições: todos os setores da comunidade judaica, dos mais ortodoxos aos reformistas e laicos, estão representados na Federação Judaica local. Um Beit Din (tribunal rabínico) unificado faz conversões ortodoxas e rege as leis de cashrut para todos.

Fiquei surpreso e ao mesmo tempo orgulhoso ao ver uma placa pedindo doações ao UJA (United Jewish Appeal) no gramado de uma escola judaica “ultra-ortodoxa” só para homens. Diga-se de passagem, a comunidade judaica canadense é veementemente sionista e apoia Israel de todas as maneiras possíveis, organizando feiras, exposições, facilitando contados comerciais e culturais.              

A facilidade para obter comida Casher e um Minian para rezar de todos os tipos e horários também é uma marca de Toronto. Eles têm hipermercados com várias alas Casher, que incluem rotisserie, patisserie, diversas geladeiras com queijos casher de vários países, outras com salames light de Israel, trocentos tipos de saladas judaicas e uma padaria casher à la italiana com uma variedade de pães que nunca vi.

Olha só isto: comprei um pão ciabata Casher fatiado, por 1 dolar canadense. Na ala não casher tinha o mesmo tipo de pão por 1,20 dolar. Também tem uma loja só de vinhos Casher de todo o mundo.              

Obviamente, não podemos esquecer Montreal. Cidade bilingue no passado, foi se tornando monocultural, ao contrário de Toronto. Em Montreal reina o francês. Poucos anos atrás o dono de um estabelecimento foi forçado a trocar a placa do seu negócio porque a palavra “Casher” em hebraico excedia em tamanho à mesma palavra escrita em francês.

Apesar disto, Montreal oferece uma enorme gama de serviços judaicos, com seus restaurantes Casher de fazer inveja (experimente a pizzaria Casalinga), Sinagogas de todas as tendências e um maravilhoso centro cultural e esportivo judaico (J.C.C.), onde quase só se fala Inglês e até a cafeteria  é Casher. Vale a pena visitar sua Spanish-Portuguese Synagogue. A cidade não é quadradinha como Toronto. A maioria dos judeus vive no bairro de Côte-St-Luke, chamado caricaturamente de Côte-St-Jew e nas ruas e avenidas perto da estação de metrô “Plamondon”.  

            Outras cidades canadenses com vida judaica expressiva são Vancouver, Winnipeg (onde vive uma  comunidade organizada de judeus argentinos), Calgary, London, Windsor e Halifax.

 

       Mas o que mais me impressionou até hoje no Canadá judaico, foi a Yeshivá NEFESH DOVID para deficientes autidivos em Toronto, regida pelo Rav Kakon, ele mesmo um deficiente autidivo, instituição que conheci na minha visita ao Canadá no ano passado.

O Rav me convidou para uma aula de Talmud com power point exibindo o texto num paredão para os alunos, que, atentos, discutiam os assuntos na linguagem dos sinais, sem menos destreza do que as pessoas que ouvem. Minha emoção era crescente. Rav Kakon me pediu que contasse sobre a vida e comunidade judaica no Brasil, enquanto eles liam nos lábios e um fazia sinais aos outros. Usei o quadro negro para escrever o nome Brasil em hebraico e fazer um mapa meio fuleiro onde indicava São Paulo e o Rio como cidades principais. Depois o Rabino Kakon me surpreendeu, pedindo que ensinasse uma das minhas músicas aos alunos.

A alma gela nestas horas. Escrevi o refrão da canção do Iétser Hará em hebraico e comecei a ensinar a eles, que batiam com os pés em ritmo no chão para acompanhar a melodia. De repente se levantaram todos, deram as mãos e começaram a cantar a musica em roda, mesmo que a maioria podia ouvir muito pouco ou quase nada. Fiquei tão emociondo que nem sentia os pés. Parecia flutuar. Lembrei que o avião partiria em poucas horas e precisei me despedir às pressas. Me apresentaram rapidamente um aluno do Brasil, a quem dei um exemplar do livro "Alegria e Bondade n Coração", que recém traduzira. Um dos alunos se prontificou a me levar até a padaria kosher, onde pude comer algo e preparar uns sandubas para o caminho.

O resto é uma história mais impressionante ainda, mas isso requer outro artigo, mas com esta você já pode ter uma idéia do calor humano do Canadá judaico. 

Nem tudo o que parece frio, é de verdade... frio! 

O autor em frente à Sinagoga tangerina de Toronto, num lindo dia de Janeiro.             

 

 

* Fonte: http://www.jewishtorontoonline.net  

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